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Ataques terroristas terão forte impacto nas relações EUA-América Latina

WASHINGTON, 28 set (AFP) - Os ataques terroristas de 11 de setembro mudaram a agenda da política externa dos Estados Unidos e terão repercussões importantes nas relações de Washington com América Latina, segundo estimativas de analistas esta semana.

Rubens Barbosa, embaixador do Brasil na Casa Branca, expressou esta sexta-feira o temor de que a atenção dos Estados Unidos para com a América Latina e Caribe "se dilua, no momento em que mais se precisa disso", por causa dos efeitos adversos que a região já está sofrendo, no terreno econômico, com a diminuição do comércio, os investimentos e o turismo.

"Acredito que precisamos buscar uma forma para que a região não desapareça da tela de radar dos Estados Unidos, onde foi colocada por decisão direta do presidente George W. Bush desde o começo de seu mandato", disse Barbosa num fórum no instituto privado Centro de Estudos Estratégicos Internacionais (CSIS, pelas iniciais de seu nome em inglês.

O Fundo Monetário Internacional (FMI) reconheceu na quarta-feira, num relatório, que a América Latina e o Caribe sofrerão o impacto da freada adicional provocado pelos mortíferos atos terroristas de 11 de setembro.

Infelizmente, disse Barbosa, o golpe aconteceu num momento em que tanto as economias dos Estados Unidos como as da América Latina já estavam em posição vulnerável, por causa da forte desaceleração do crescimento nos primeiros oito meses do ano.

Num estudo concluido antes dos ataques, o FMI tinha revisado a baixa as perspectivas do crecimento econômico médio da região, que agora estima em 1,7% contra 4,2% no ao passado. Na maioria dos países a taxa de crescimento será cortada pela metade ou mais, segundo o instituto.

O efeito daninho do terrorismo foi registrado também na resolução aprovada pelos chanceleres do continente na Organização de Estados Americanos no dia 21 de setembro, destacando que o clima de insegurança gerado prejudica gravemente o comércio, o turismo e os fluxos de capital para investimentos.

"Isso é uma preocupação importante para todos os países,, porque os fluxos financeiros, os investimentos, o comércio, já estavam diminuindo, e agora as tendências se intensificaram", disse Barbosa.

Há que se admitir, também, que as prioridades dos Estados Unidos mudaram, e que os assuntos de segurança estão agora num primeiro plano, o que não é o caso da América Latina. "Isso pode gerar tensões no hemisfério", advertiu o diplomata brasileiro.

Um funcionário especialista em questões de segurança hemisféria, que pediu para não ser identificado, disse à AFP que o importante na nova situação é a mudança de valores na agenda dos Estados Unidos, e o fato de que a América Latina "provavelmente não sabe como responder" a essa mudança.

"Para os Estados Unidos nesse momento, o importante é o terrorismo, enquanto muitos países na América Latina vivem há anos com o terrorismo, de modo que não sentem o assunto com a mesma intensidade", frisou.

Mas, na América Latina as repercussões econômicas serão muito ampliadas, "e isso vai se transformar no maior problema".

Para este funcionário, é inevitável que a relações com a América Latina vão receber menos atenção nos próximos dias e meses.

No entanto, outros dois altos responsáveis dos Estados Unidos afirmaram que Washington não vai descuidar do mais mínimo tratamento com seus vizinhos do sul.

Roger Noriega, embaixador dos Estados Unidos na OEA, assegurou no fórum do CSIS que a América Latina "não vai desaparecer da tela", e recordou que Bob Zoellick, responsável do Comércio Exterior, enfatizou esta semana a necessidade de reforçar os laços comerciais com os aliados tradicionais, como "âncora" da coalizão contra o terrorismo.

Roger Pardo-Maurer, Subsecretário Assistente de Defesa para o Hemisfério Ocidental, assegurou que o enfoque do Pentágono é justamente o contrário. "Da forma como estamos vivendo este problema, o hemisfério tanto não vai desaparecer da tela como vai ser mais importante que nunca", disse o funcionário.

Lowell Fleischer, um analista do CSIS, disse no entanto que a complicada situação surgida depois dos atentados "vai afetar todas as áreas das relações com a América Latina", e "dará trabalho" manter a região próxima do topo da agenda.

"Mas eu acredito que há um reconhecimento de que, mesmo que o mundo repentinamente pareça ter mudado, a América Latina e o Caribe ainda são nossos vizinhos próximos, e isso pode terminar tendo o efeito positivo de fortalecer nossas relações com a região", disse Fleischer.