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EUA não estão preparados para ataque bioterrorista WASHINGTON - Os Estados Unidos não estão preparados adequadamente para enfrentar ataques bioterroristas, é o que dizem vários especialistas e autoridades de saúde. O país precisa desenvolver novas vacinas e tratamentos, dizem eles, e também fortalecer sua frágil infra-estrutura de saúde pública, a primeira linha de defesa na detecção e contenção de ameaças biológicas. O bioterrorismo -a liberação intencional de vírus ou bactérias potencialmente letais no ar, alimentos ou abastecimento de água- apresenta desafios técnicos desencorajadores, e os especialistas dizem que é difícil a execução de um ataque bem-sucedido. Ainda assim, muitos acreditam que alguém eventualmente tentará um contra os Estados Unidos. Nas semanas que se seguiram aos ataques de 11 de setembro contra o Pentágono e o World Trade Center, grande parte da discussão sobre o bioterrorismo se concentrou na escassez de antibióticos e vacinas. Mas o maior problema, concordaram as autoridades, é a falta de uma infra-estrutura básica de saúde pública e de prontidão para impedir ou limitar os efeitos de um ataque terrorista desse tipo. Os médicos são mal preparados para reconhecer sintomas de infecção por possíveis armas biológicas, como peste e antraz, que lembram uma gripe. Muitos dos hospitais do país carecem dos equipamentos necessários -em alguns casos até mesmo equipamentos simples como aparelhos de fax- para receber ou fornecer informações em caso de emergência. Apesar de várias agências federais terem criado equipes de resposta e procedimentos contra o bioterrorismo, e de ter ocorrido um constante aprimoramento dos laboratórios do país para testar e identificar agentes biológicos, o resultado é uma colcha de retalhos, em cima de outras colcha de retalhos ainda maior de cidades, condados e Estados com seus próprios planos e procedimentos. "Para o bioterrorismo, a inadequação número um, se quiser colocá-las em um ranking, é a inadequação da nossa infra-estrutura de saúde pública", disse o senador Bill Frist, republicano do Tennessee. "Isto é um produto de cerca de 15 anos de negligência". Em um relatório divulgado na semana passada, o General Accounting Office, órgão de investigação do Congresso, disse que o planejamento de combate ao bioterrorismo do governo era tão desconexo que as agências envolvidas nem mesmo concordavam em quais agentes biológicos representavam a maior ameaça. As autoridades dos Centros para Controle e Prevenção de Doenças, por exemplo, consideram a varíola um grande risco. Mas o FBI nem mesmo coloca a varíola em sua lista. Ao mesmo tempo, há buracos na burocracia federal, onde duas importantes posições de saúde continuam vagas: a de comissário de alimentos e medicamentos e de diretor dos Institutos Nacionais de Saúde. A Food and Drug Administration, agência reguladora de drogas e alimentos, teria um papel crucial no desenvolvimento de vacinas e tratamentos para uso em caso de um ataque biológico, mas o presidente Bush e o Congresso -em particular o senador Edward M. Kennedy, democrata de Massachusetts- não conseguiram concordar em um nome aceitável. As autoridades federais tiveram uma amostra de quão complicado seria um ataque bioterrorista durante um exercício de guerra realizado em junho na Base Andrews da Força Aérea, fora de Washington. O exercício foi batizado com o codinome Inverno Sombrio. Participaram mais de uma dúzia de pessoas especializadas em bioterrorismo; Sam Nunn, o ex-senador, fez o papel do presidente, e Jerome M. Hauer, o ex-chefe da administração de emergências da cidade de Nova York, fez o papel do chefe da agência federal de administração de emergências. O exercício começou com o informe de um único caso de varíola em Oklahoma City. No momento em que o exercício acabou, a epidemia imaginária tinha se espalhado por 25 Estados e matado milhões de pessoas. À medida que o quadro avançava, se tornando cada vez mais grave, o governo ficou rapidamente sem estoque de vacinas, forçando autoridades a tomarem decisões de vida ou morte sobre quem deveria ser protegido e se os militares deveriam entrar em ação para assegurar a quarentena dos pacientes. "O Inverno Sombrio mostrou o quão estamos despreparados para lidar com o bioterrorismo", disse Hauer, consultor de Tommy G. Thompson, o secretário de Saúde e Serviços Humanos. "Ele apontou os problemas enfrentados por todos os níveis do governo". Para solucionar tais problemas, Kennedy e Frist estão pedindo a Bush que invista no mínimo US$ 1 bilhão (R$ 2,6 bilhões) em uma série de medidas que, segundo eles, melhorarão a capacidade das autoridades de saúde de combater o bioterrorismo. Em uma entrevista, Thompson concordou que as melhorias são necessárias, apesar de ter dito que o governo está preparado para lidar com um ataque neste momento. "Eu gostaria de ampliar nosso estoque de medicamentos", disse Thompson. "Eu gostaria de melhorar nosso sistema de saúde pública. Eu gostaria de dispor de mais inspetores de alimentos. Eu gostaria de ampliar a segurança em nossos laboratórios. Eu gostaria de comprar mais vacinas". Durante anos as autoridades federais consideraram a ameaça de bioterrorismo como insignificante. Agora, após os ataques de 11 de setembro, parte da população desenvolveu um temor intenso de uma guerra bacteriológica, e estão tentando estocar seus próprios suprimentos. "Nós temos pessoas comprando máscaras contra gás e antibióticos, só que estas coisas não fornecerão nenhuma proteção real", disse Stephen S. Morse, diretor do Centro de Prontidão de Saúde Pública da Universidade de Colúmbia. Os temores, disse Morse, são muito maiores do que o risco verdadeiro de uma ameaça bioterrorista. Mas apesar de Thompson dizer que o governo está "confiante de poder agir e reagir diante de qualquer ataque bioterrorista", Morse e outros especialistas em saúde pública não compartilham sua confiança. Apesar do país estar melhor preparado do que há três ou quatro anos, eles argumentam que ele está muito longe de poder lidar com um ataque bioterrorista. Por exemplo, os Estados Unidos dispõem no momento de apenas 7 a 15 milhões de doses de vacina contra varíola -as estimativas variam- enquanto especialistas estimam que pelo menos 40 milhões seriam necessárias para combater uma epidemia séria. Segundo um contrato do governo, uma empresa de Cambridge, Massachusetts, está testando uma nova vacina, mas ela só estará disponível, quanto muito, em 2004. Mas talvez a necessidade mais urgente, dizem muitos especialistas, é melhorar a capacidade do país de reconhecer quando um ataque biológico está em progresso. "Nós não teríamos uma bomba caindo do céu e atingindo alguém para que pudéssemos dizer: 'Olha, é uma bomba, estamos todos morrendo de antraz'", disse Asha M. George, que estuda guerra biológica para a Iniciativa Nunn-Turner, uma fundação sem fins lucrativos de Washington. "Provavelmente seria uma liberação sigilosa, e as pessoas adoeceriam e iriam aos hospitais, e o sistema de saúde pública teria que lidar a partir daí". De certa forma, o ataque de 11 de setembro ao World Trade Center foi um teste deste sistema. Minutos após os dois jatos terem colidido contra o World Trade Center, a Guarda Nacional foi mobilizada. A Guarda criou 29 equipes em todo o país para auxiliar na resposta a ataques químicos, biológicos e por radiação; em 11 de setembro, uma unidade de 22 membros foi enviada para Manhattan para testar o ar à procura de germes letais e toxinas químicas. Nada foi encontrado. Logo depois, os Centros para Controle e Prevenção de Doenças, uma divisão da agência de saúde e serviços humanos que coordena a prontidão para combate ao bioterrorismo, enviou uma mensagem para todo país a partir de sua sede em Atlanta, alertando departamentos de saúde locais e estaduais a procurarem por sinais de doenças incomuns que poderiam resultar de um ataque químico ou biológico. Tal alerta permanece em vigor; até o momento, nada fora do comum foi informado. Ao mesmo tempo, membros do Serviço de Inteligência Epidemiológica dos centros ficaram posicionados em 15 hospitais de alerta espalhados pelos cinco distritos de Nova York, também a procura de sintomas estranhos. E pela primeira vez, medicamentos e outros suprimentos médicos foram enviados pelo Estoque Farmacêutico Nacional, que é mantido pelos centros de controle de doenças para resposta em caso de uma epidemia de germes. Mas de muitas formas, 11 de setembro não foi um teste verdadeiro. Não houve agentes químicos e biológicos para detectar. Por haver muito menos feridos do que as autoridades imaginavam, os membros da inteligência epidemiológica trabalharam em um ambiente hospitalar relativamente calmo, ao invés de salas de emergência lotadas. Os suprimentos de medicamentos e material hospitalar praticamente não foram usados. Assim, apesar de Thompson insistir que o governo "pode lidar com qualquer contingência no momento", não há como saber se a resposta seria adequada durante um ataque bioterrorista real, segundo um especialista envolvido de perto no planejamento antiterror, que falou sob a condição de anonimato. Por um lado, disse o especialista, nos ataques contra Nova York, médicos, enfermeiras e outros profissionais de saúde permaneceram em seus postos. Mas no evento de um ataque biológico, muitos poderiam ir para casa em busca de suas próprias famílias. Além disso, com a pressão para eliminar o número de leitos e aumentar a eficiência, os hospitais perderam o que chamam de capacidade de sobrecarga, a capacidade de acomodar um aumento repentino de pacientes. "Quando você não vê coisas incomuns, você não pensa em coisas incomuns", disse Nicole Lurie, uma ex-autoridade federal de saúde que cuidou de questões de bioterrorismo no governo Clinton. "Eu vi três pessoas na manhã de ontem com problemas respiratórios severos. Todos tinham os mesmos sintomas. Será que eu deveria pensar que se trata de bioterrorismo?" Uma grande parte do desafio do governo está em simplesmente coordenar sua resposta; por toda Washington, uma série de órgãos, incluindo os departamentos de energia, defesa, justiça e as agências de saúde e serviços humanos, estão ocupados se preparando para ataques bioterroristas. A função de coordenar tais órgãos logo ficará nas mãos de Tom Ridge, o governador da Pensilvânia, a quem Bush nomeou chefe do novo Escritório de Segurança Interna. Alguns especialistas fora do governo disseram que Thompson já tomou uma medida na direção certa ao criar um novo cargo de coordenação de departamentos em uma iniciativa contra o bioterrorismo. Em julho, quase dois meses antes dos ataques ao World Trade Center, Thompson nomeou para o cargo Scott Lillibridge, o principal especialista em bioterrorismo do centro de controle de doenças. Assim, apesar de suas preocupações, muitos especialistas concordam que existe uma base sobre a qual aprimorar a resposta do país a um ataque bioterrorista. |