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"Pela primeira vez, o sistema de segurança dos EUA foi ludibriado"
Para o professor de Relações Internacionais da Universidade Estadual do Rio de Janeiro (Uerj) Williams Gonçalves, ao contrário do que se pensou imediatamente, os autores do ataque podem ser grupos extremistas americanos, insatisfeitos com o grau de intervenção dos EUA no sistema sócio-político global, e não grupos islâmicos.

- Os radicais islâmicos sempre serão suspeitos em potencial. Mas, pela primeira vez na História, todo o sistema de segurança dos EUA foi ludibriado, o
que mostra que as ações foram tramadas por pessoas que conhecem os bastidores do governo americano. Quando houve o atentado contra o prédio de Oklahoma, em 1995, e todos acusavam grupos islâmicos, o mundo surpreendeu-se com a ação de grupos nacionalistas americanos, encabeçados à época por Timothy McVeigh – ponderou Gonçalves.

Segundo ele, uma retaliação americana é quase certa. Mas ainda não é possível considerar os atentados o primeiro passo para uma declaração de guerra, pois um conflito armado envolve estados e exércitos.

- É uma situação extremamente atípica, pois não se conhece os inimigos e sua motivação. O terrorismo nesta escala é um fato absolutamente novo e chocante – afirmou.

"Episódio coloca em cheque conflito entre israelenses e palestinos"

Os atentados contra Washington e Nova York terão seu maior impacto na já conturbada política do Oriente Médio, segundo o coordenador do Centro de Estudos das Américas da Universidade Cândido Mendes, Clóvis Brigagão. Ele acredita que a onda de terrorismo seja orquestrada por grupos radicais islâmicos, mas com o apoio de nações inimigas dos EUA e de grupos nacionalistas.

- O movimento fundamentalista luta unido por defender a mesma causa, que é a religião muçulmana. A situação coloca em xeque o conflito entre israelenses e palestinos. Agora, ou há uma escalada geral no Oriente Médio, ou uma reunião internacional tentará resolver a questão de vez, preservando o Estado de Israel e criando um estado palestino – avaliou o analista.

Para Brigagão, é muito provável que a resposta americana venha em partes, pois um ataque militar direto traria uma espiral ainda maior de violência.

- Após os atentados contra as embaixadas americanas no Quênia e na Tanzânia, em 1998, os EUA atacaram bases consideradas terroristas, uma por vez, começando pelo Sudão – lembrou ele.

"Ainda não estamos na iminência da III Guerra Mundial"

O pesquisador do Núcleo de Estudos Estratégicos da Universidade de Campinas (Unicamp) Eliezer Rizzo de Oliveira descartou que os atentados terroristas representem a iminência de uma Terceira Guerra Mundial. Segundo ele, os responsáveis pelo banho de sangue nos EUA não são "adversários potentes" para enfrentar a maior potência do planeta.

A situação vivida hoje, no entanto, é a mais grave ameaça geo-política vivida desde a Guerra do Golfo, em 1990, na avaliação de Rizzo.

- Este foi um ataque ao coração dos EUA e o episódio mais grave desde a crise com o Iraque. Agora, temos ainda o agravante de que a facilidade com que foram cumpridos os objetivos demonstra que muita coisa deve ter falhado: da inteligência militar à não-militar - arriscou o pesquisador, apostando numa retaliação militar apoiada pelas tropas da Otan.

"A 'polícia do mundo’ tem sua defesa colocada em xeque"

Os EUA, sempre considerados “a polícia do mundo” por sua intervenção na vida sócio-econômica-política do planeta, assistem estupefatos aos atos de terrorismo contra seus cidadãos. De acordo com o professor titular do Departamento de Sociologia da Universidade de São Paulo (USP) Sedi Hirano os ataques põem em xeque o tão propalado sistema de defesa americano.
- Está claro que os EUA ainda não têm um sistema de auto-defesa seguro - ressaltou o professor, especialista em estudos do desenvolvimento do moderno capitalismo mundial.

Hirano declarou que ainda é arriscado prever reações à onda terrorista até que se conheçam os responsáveis por abalar a estabilidade dos EUA e tirar o sono do presidente George W. Bush.